Tudo vem,
Há,
E logo então
É passado
20.6.11
25.3.11
Sutil
Saberei que não sou mais humano
Quando deixar de errar
Então me deixa errar, meu bem
Tem paciência
Porque errar é humano
E ser humano
É ser amar
Quando deixar de errar
Então me deixa errar, meu bem
Tem paciência
Porque errar é humano
E ser humano
É ser amar
Transparência
E noite após noite
Um sussuro diferente
Sempre sem acordar
Vai entrando calado
Feito vento, transparente
Sem força pra despertar
É bom que saiba então
Que a mesma tez indolente
Encerra o impulso de esperar
Encerra sonhos agitados
Onde não há alma que se invente
Mas volta e meia, recorrente
Você parece figurar
Um sussuro diferente
Sempre sem acordar
Vai entrando calado
Feito vento, transparente
Sem força pra despertar
É bom que saiba então
Que a mesma tez indolente
Encerra o impulso de esperar
Encerra sonhos agitados
Onde não há alma que se invente
Mas volta e meia, recorrente
Você parece figurar
17.3.11
São João
Eu sou a cruz
Eu sou a espada
A dor e a fome
Sou a morada
Eu sou morada
Eu sou o teto
Eu sou o chão
Sou São João
Eu sou orgulho
Sou solidão
Sou fortaleza
Sou São João
Eu sou fraqueza
Eu sou verdade
Sou São João
Sou santidade
Eu sou a chave
Eu sou grilhão
Sou vento-sul
Sou São João
Eu sou a morte
Eu sou a vida
Eu sou ferida
Eu sou saída
Eu sou escravo
Eu sou senhor
Eu sou paixão.
Sou São João.
Eu sou a espada
A dor e a fome
Sou a morada
Eu sou morada
Eu sou o teto
Eu sou o chão
Sou São João
Os minutos passam e as paredes a cela encerram. No fundo, um balbuciar santo, protetor, segurança da jangada da vida. Um leve gotejar completa o ambiente. Ou será seu corpo uma caverna à parte?
Eu sou orgulho
Sou solidão
Sou fortaleza
Sou São João
Eu sou fraqueza
Eu sou verdade
Sou São João
Sou santidade
Ainda que lavado pelo véu d'água, se sente encarcerado. E assim, toda a grandeza se esvai: de tão pequeno, começa a crer que não havia a real fuga do cárcere — o mundo inteiro é prisão.
Eu sou a chave
Eu sou grilhão
Sou vento-sul
Sou São João
Eu sou a morte
Eu sou a vida
Eu sou ferida
Eu sou saída
Eu sou escravo
Eu sou senhor
Eu sou paixão.
Sou São João.
8.10.10
Outubros
Costumam ser farpas incômodas. Estive lendo. Queira o deus de vocês que eu vença mais esse, porque o meu me deixou alguns dias-de-padroeira atrás.
Valei-me.
Valei-me.
Mãos Em Concha
Recolhido a um canto sem paredes do pátio, recurvava o corpo sobre as mãos unidas, criando um côncavo protetor sobre elas. As duas formavam uma espécie de concha quase cerrada, como escondesse algo cuidadosamente. Segredo.
Podia sentir ainda o escaldo do Sol, não tão estressante quanto se podia imaginar. Até mesmo aquela enganosa impressão de ouvir o som do mar ainda lhe era íntima. O tempo, esse então, nunca lhe parecera tanto uma estrada curta. Larga, mas curta.
A qualquer um, pareceria excêntrico. De fato o era, mas ninguém precisava saber. Nem mesmo fazia parte de seus planos revelar o que guardava com tanto esmero no esconderijo. E ponto final.
Segredo.
Mas, cá entre nós, eu conto. Ele tentava resguardar um visitante variável. Tentava resguardar um arisco raiozinho de Sol. Daquela mesma luz primeira da manhã.
Mas isso é segredo, hein.
Podia sentir ainda o escaldo do Sol, não tão estressante quanto se podia imaginar. Até mesmo aquela enganosa impressão de ouvir o som do mar ainda lhe era íntima. O tempo, esse então, nunca lhe parecera tanto uma estrada curta. Larga, mas curta.
A qualquer um, pareceria excêntrico. De fato o era, mas ninguém precisava saber. Nem mesmo fazia parte de seus planos revelar o que guardava com tanto esmero no esconderijo. E ponto final.
Segredo.
Mas, cá entre nós, eu conto. Ele tentava resguardar um visitante variável. Tentava resguardar um arisco raiozinho de Sol. Daquela mesma luz primeira da manhã.
Mas isso é segredo, hein.
5.10.10
Vermelho-morte
Quando veio o primeiro engano
Não deve ter sido coisa de homens
Nem de homem
Deve ter sido uma moça inconsolável
Que ao ver seu doce amor
Virar um amontoado de carnes mortas,
Teve a maravilhosa sensatez
De pintar a morte de preto
E não de vermelho-sangue
Como ela é e sempre será
Vermelho-morte
Morte vermelha que dói
Não deve ter sido coisa de homens
Nem de homem
Deve ter sido uma moça inconsolável
Que ao ver seu doce amor
Virar um amontoado de carnes mortas,
Teve a maravilhosa sensatez
De pintar a morte de preto
E não de vermelho-sangue
Como ela é e sempre será
Vermelho-morte
Morte vermelha que dói
30.8.10
Trocados
Acordou choroso. Fez a toilet sem muito capricho; algo naquela manhã em especial o compelia a não desperdiçar-se naquilo. Desceu ao térreo com uma feição estranha no rosto: momentos antes, estudava-se longamente no espelho do elevador. Tanta velhice, tanto torpor. Mal podia acreditar que há tão poucos dias ainda estivera acompanhado dela. Mal podia acreditar que há poucas semanas enfrentara tantos moralistas por aquele amor. Amor. Imbróglio. Pais e pais e pais e conversas e discussões, tudo para que, ao fim de uma tarde qualquer de domingo, estivessem acabados. Bom, ao menos ele. Por vezes ainda tinha a impressão de ouvi-la rir não tão longe dali, entretida com um forasteiro de ar jovial e fala mansa. Ou quem sabe aquele fantástico professor de literatura sobre quem ela tanto falara e até balbuciara-lhe o nome durante o sono. Ela era tão nova e ele era tão velho. Séculos os separavam e ele se demorara em construir uma ponte que os permitisse repousar juntos.
Deslizou relapso pela portaria e ganhou os primeiros metros da calçada sem muito esforço. Tateou os bolsos em busca de trocados. Os famosos trocados, ela sempre ria de seus trocados. Ela sempre ria. Assim como lhe zombava as meias velhas e encardidas, que ele relutava em trocar. Achou-se então menos valioso que suas meias imundas; ela não teve a mesma dificuldade em dizer-lhe não que ele sempre tivera para com as meias. Sentiu as moedas no bolso da camisa. Receou serem botões. Eram moedas. Contou-as enquanto desviava-se do fluxo contrário de transeuntes. Ineficaz, como deveria ter-se imaginado: chocou-se ombro a ombro como uma senhora, senhora esta que vacilou com o impacto. Espalhou-se desserviço pela calçada. Desserviço e moedas, as quais o rapaz apressou-se em recuperar, enquanto balbuciava pedidos de perdão à dona que pensava ter ferido. A mulher, por sua vez, ignorou-os e há alguns segundos retomara a rota original, sem encontrões ou pedidos de perdão.
Perdão. Ela o perdoara tantas vezes... tantas, tantas vezes. Decerto, tomar conhecimento daquelas atitudes fora crucial na postura irresponsável que a filha invariavelmente havia adotado recentemente, até mesmo quebrara o coração de um tal rapaz. Ainda assim, tinha sido um bom pai, o diabo, e até mesmo um bom companheiro; no entanto, ela há muito compreendera que ele nunca poderia ter-se sentido homem de uma só mulher. Longos fios de cabelo e perfumes estranhos, sempre nas roupas de trabalho. De alguma forma, não o culpara e o perdão tinha sido sua morada por diversas vezes, no desespero das tardes de folga em casa. Chorara longas horas de perdão sozinha. Absorta, só pôde perceber os "espólios" do acidente quando pousou o jornal que trazia debaixo do braço sobre o balcão do café. Uma pequena moeda (que outrora pertencera ao rapaz do encontrão) alojara-se numa das dobras do papel e agora sorria sombriamente para sua nova dona. E quem seria, a essas alturas, a nova dona dele? Às vezes se perguntava se ele não era fiel a somente uma das tais "outras". Uma que tivesse longos cabelos loiros, como aquelas que o impressionavam tanto nos filmes aos quais assistiram juntos e sobre as quais ele não tinha sequer o pudor de omitir os comentários. Às vezes se pegava torcendo para que ela fosse bem bonita. Como ela sabia que um dia fora. Terminou o cappuccino. Mirou longamente a pequena peça de metal ao lado da xícara. Juntou-a a algumas notas e empurrou-as sem cerimônias à enfastiada moça do caixa. Tudo, trocado, sem troco. Um arrepio de redenção percorreu-lhe o corpo ainda curvilíneo quando sentiu os olhos do homem atrás de si na fila percorrerem-lhe as carnes, sedentos, enquanto ela girou e retirou-se do recinto.
Recinto. Ressentia. O odor de sangue impregnou-lhe novamente as narinas, mentalmente, e ele pôde vislumbrar novamente aquele quarto empoeirado onde era o rei, o mestre, o guia. Mal pôde notar quando a operadora do caixa deslizou a moeda que acabara de receber da mulher na direção do homem, completando o troco. Funcionava paralelamente à sua mente quando recolheu a quantia e girou nos calcanhares para cruzar o corredor em direção à pequena loja de livros. Aqueles outros livros haviam lhe custado tanta paciência e zelo que sequer podia considerar o valor material diante do prazer que sentia ao folheá-los, salpicados de sangue. O toque áspero das páginas antigas, o suave rumor das páginas tornando-se ultrapassadas... tudo isso intercalado pelos gritos guturais de suas meninas. Moças lindas, elas eram. Tão lindas, tão jovens. Ele as explorava como a almanaques, cheios de referências e detalhes, curiosidades... Cada grito ecoava em sua mente como se implorassem por mais. E então ele era caridoso e lhes dava mais: deslizava-lhes amorosamente as lâminas pelo corpo, abrindo vias maravilhosas por entre a pele e as carnes pulsantes delas. Respirou fundo ao reviver cada segundo de sua intimidade; sentiu-se um poeta inigualável. Mal podia acreditar que estava tão próximo de escrever mais um soneto em seu legado. Consultou o relógio de bolso assim que adentrou a pequena banca de livros usados com um bom-dia prestativo do velho proprietário do ponto. Oito e trinta e seis. Já podia sentir a fragrância feminina misturada ao cheiro de medo e sangue; apertou a mão num reflexo prazeroso e sentiu o toque metálico do troco do café na mão. Uma voz suave o sobressaltou, vinda de suas costas e ele se virou de chofre, deixando à gravidade a função de arrastar as moedas até o chão e espalhá-las, quicando, enquanto ele mesmo se ocupava de saudar, galantemente, a fonte de seu susto. A moça sorriu e se curvou para recolher o dinheiro do chão, salvando na própria mão os trocados.
Trocados. Os famosos trocados, ela riu por dentro. Sempre ria dos trocados. Não se demorou em acompanhar o homem que a esperara tão educadamente. As moedas no chão deviam ser um bom sinal, como antes foram.
Lá de cima, Deus se divertia.
Deslizou relapso pela portaria e ganhou os primeiros metros da calçada sem muito esforço. Tateou os bolsos em busca de trocados. Os famosos trocados, ela sempre ria de seus trocados. Ela sempre ria. Assim como lhe zombava as meias velhas e encardidas, que ele relutava em trocar. Achou-se então menos valioso que suas meias imundas; ela não teve a mesma dificuldade em dizer-lhe não que ele sempre tivera para com as meias. Sentiu as moedas no bolso da camisa. Receou serem botões. Eram moedas. Contou-as enquanto desviava-se do fluxo contrário de transeuntes. Ineficaz, como deveria ter-se imaginado: chocou-se ombro a ombro como uma senhora, senhora esta que vacilou com o impacto. Espalhou-se desserviço pela calçada. Desserviço e moedas, as quais o rapaz apressou-se em recuperar, enquanto balbuciava pedidos de perdão à dona que pensava ter ferido. A mulher, por sua vez, ignorou-os e há alguns segundos retomara a rota original, sem encontrões ou pedidos de perdão.
Perdão. Ela o perdoara tantas vezes... tantas, tantas vezes. Decerto, tomar conhecimento daquelas atitudes fora crucial na postura irresponsável que a filha invariavelmente havia adotado recentemente, até mesmo quebrara o coração de um tal rapaz. Ainda assim, tinha sido um bom pai, o diabo, e até mesmo um bom companheiro; no entanto, ela há muito compreendera que ele nunca poderia ter-se sentido homem de uma só mulher. Longos fios de cabelo e perfumes estranhos, sempre nas roupas de trabalho. De alguma forma, não o culpara e o perdão tinha sido sua morada por diversas vezes, no desespero das tardes de folga em casa. Chorara longas horas de perdão sozinha. Absorta, só pôde perceber os "espólios" do acidente quando pousou o jornal que trazia debaixo do braço sobre o balcão do café. Uma pequena moeda (que outrora pertencera ao rapaz do encontrão) alojara-se numa das dobras do papel e agora sorria sombriamente para sua nova dona. E quem seria, a essas alturas, a nova dona dele? Às vezes se perguntava se ele não era fiel a somente uma das tais "outras". Uma que tivesse longos cabelos loiros, como aquelas que o impressionavam tanto nos filmes aos quais assistiram juntos e sobre as quais ele não tinha sequer o pudor de omitir os comentários. Às vezes se pegava torcendo para que ela fosse bem bonita. Como ela sabia que um dia fora. Terminou o cappuccino. Mirou longamente a pequena peça de metal ao lado da xícara. Juntou-a a algumas notas e empurrou-as sem cerimônias à enfastiada moça do caixa. Tudo, trocado, sem troco. Um arrepio de redenção percorreu-lhe o corpo ainda curvilíneo quando sentiu os olhos do homem atrás de si na fila percorrerem-lhe as carnes, sedentos, enquanto ela girou e retirou-se do recinto.
Recinto. Ressentia. O odor de sangue impregnou-lhe novamente as narinas, mentalmente, e ele pôde vislumbrar novamente aquele quarto empoeirado onde era o rei, o mestre, o guia. Mal pôde notar quando a operadora do caixa deslizou a moeda que acabara de receber da mulher na direção do homem, completando o troco. Funcionava paralelamente à sua mente quando recolheu a quantia e girou nos calcanhares para cruzar o corredor em direção à pequena loja de livros. Aqueles outros livros haviam lhe custado tanta paciência e zelo que sequer podia considerar o valor material diante do prazer que sentia ao folheá-los, salpicados de sangue. O toque áspero das páginas antigas, o suave rumor das páginas tornando-se ultrapassadas... tudo isso intercalado pelos gritos guturais de suas meninas. Moças lindas, elas eram. Tão lindas, tão jovens. Ele as explorava como a almanaques, cheios de referências e detalhes, curiosidades... Cada grito ecoava em sua mente como se implorassem por mais. E então ele era caridoso e lhes dava mais: deslizava-lhes amorosamente as lâminas pelo corpo, abrindo vias maravilhosas por entre a pele e as carnes pulsantes delas. Respirou fundo ao reviver cada segundo de sua intimidade; sentiu-se um poeta inigualável. Mal podia acreditar que estava tão próximo de escrever mais um soneto em seu legado. Consultou o relógio de bolso assim que adentrou a pequena banca de livros usados com um bom-dia prestativo do velho proprietário do ponto. Oito e trinta e seis. Já podia sentir a fragrância feminina misturada ao cheiro de medo e sangue; apertou a mão num reflexo prazeroso e sentiu o toque metálico do troco do café na mão. Uma voz suave o sobressaltou, vinda de suas costas e ele se virou de chofre, deixando à gravidade a função de arrastar as moedas até o chão e espalhá-las, quicando, enquanto ele mesmo se ocupava de saudar, galantemente, a fonte de seu susto. A moça sorriu e se curvou para recolher o dinheiro do chão, salvando na própria mão os trocados.
Trocados. Os famosos trocados, ela riu por dentro. Sempre ria dos trocados. Não se demorou em acompanhar o homem que a esperara tão educadamente. As moedas no chão deviam ser um bom sinal, como antes foram.
Lá de cima, Deus se divertia.
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