O amor é uma nuvem
Deixa chover
Porque a seca vem aí
15.8.10
14.8.10
Fazer Acreditar
Vender-se-iam. Verbalmente, fantástico. Nem tão impressionante na prática. A aridez das tardes me fazia perguntar aos meus cabelos empoeirados: quanto vale um gole de ar? A secura da relva amarelada se refletia nos meus olhos, forçados a abandonar o lilás das noitinhas arrastadas para espelhar o crepúsculo magenta quase tão obsceno quanto as histórias que me enchiam os ouvidos.
Vender-se-iam. Esse é o lema daqueles que mantêm o lugar, quase dotados da mesma bazófia de um bolchevique inconformado, insandecido pelo grosso do formol. A cidade, assim como a terra, morrera a passos largos havia anos e muitos ainda se amontoavam por um fragmento do grande cadáver. Obsceno. A resignação das noites secas e solitárias acortinava-se com a autopiedade do trabalho e nutria-se da arrogância infundada de um povo iludido.
Os crocodilos não se davam sequer ao trabalho de notar que já não havia mais espaço para bandeira alguma naquela montanha. O cume estava repleto. Decerto, não haveria também lar para desbandeirados e sua estranha necessidade de beber água. Era o faroeste de gala. Nos bolsos internos dos ternos dantescos, repousavam as pistolas, engatilhadas. Era o faroeste de gala, era terra de todos.
E de tanto ser terra de todos, terminou por ser terra de ninguém — cão com muito dono morre de fome — terra de ninguém. Uma terra tão imersa em leis que acabou por se tornar um antro de negligência. E tão logo alcançava-se a compreensão, as narinas estavam cheias de fumaça, poeira e medo.
Ao fim do dia, com a fuga do calor, sentia-se todo aquele laterito compactar-se no interior da mente, enrijecendo as ideias e paixões, estupidificando-as. Se pudesse romper o peito com um urro, veria uma alma alaranjada e opaca. Haveria de dar nela um banho salgado. Bem longe dali.
Era, sim, magnífica. A prova cabal de que a irresponsabilidade pode tomar contornos em vidro, concreto, aço e asfalto. Uma peça ingênua que, no presente, remetia a pouco da empáfia da igualdade que se presumia na pompa dos discursos. Fora tempo perdido. Fora um grito de socorro. Fora o sorriso de um homem bom.
E os mequetrefes, balangandãs e faraonices. O chão duro e impassível fora todo mascarado com linhas e linhas e polígonos e ângulos e arcos urbanoides modernos. Uma coisa bonita de se ver e triste de se sentir, inatas, uma vez que o lobo espreitava com a bocarra semicerrada em cada esquina. Esquina?
Fora tempo perdido. Fora porta fechada. Bati a sola encardida no rodapé, discretamente. Não pude dizer nada diferente: embriagada pela esperança tola da igualdade, acabou por cometer o pior dos crimes: o de fazer acreditar. Fin.
Vender-se-iam. Esse é o lema daqueles que mantêm o lugar, quase dotados da mesma bazófia de um bolchevique inconformado, insandecido pelo grosso do formol. A cidade, assim como a terra, morrera a passos largos havia anos e muitos ainda se amontoavam por um fragmento do grande cadáver. Obsceno. A resignação das noites secas e solitárias acortinava-se com a autopiedade do trabalho e nutria-se da arrogância infundada de um povo iludido.
Os crocodilos não se davam sequer ao trabalho de notar que já não havia mais espaço para bandeira alguma naquela montanha. O cume estava repleto. Decerto, não haveria também lar para desbandeirados e sua estranha necessidade de beber água. Era o faroeste de gala. Nos bolsos internos dos ternos dantescos, repousavam as pistolas, engatilhadas. Era o faroeste de gala, era terra de todos.
E de tanto ser terra de todos, terminou por ser terra de ninguém — cão com muito dono morre de fome — terra de ninguém. Uma terra tão imersa em leis que acabou por se tornar um antro de negligência. E tão logo alcançava-se a compreensão, as narinas estavam cheias de fumaça, poeira e medo.
Ao fim do dia, com a fuga do calor, sentia-se todo aquele laterito compactar-se no interior da mente, enrijecendo as ideias e paixões, estupidificando-as. Se pudesse romper o peito com um urro, veria uma alma alaranjada e opaca. Haveria de dar nela um banho salgado. Bem longe dali.
Era, sim, magnífica. A prova cabal de que a irresponsabilidade pode tomar contornos em vidro, concreto, aço e asfalto. Uma peça ingênua que, no presente, remetia a pouco da empáfia da igualdade que se presumia na pompa dos discursos. Fora tempo perdido. Fora um grito de socorro. Fora o sorriso de um homem bom.
E os mequetrefes, balangandãs e faraonices. O chão duro e impassível fora todo mascarado com linhas e linhas e polígonos e ângulos e arcos urbanoides modernos. Uma coisa bonita de se ver e triste de se sentir, inatas, uma vez que o lobo espreitava com a bocarra semicerrada em cada esquina. Esquina?
Fora tempo perdido. Fora porta fechada. Bati a sola encardida no rodapé, discretamente. Não pude dizer nada diferente: embriagada pela esperança tola da igualdade, acabou por cometer o pior dos crimes: o de fazer acreditar. Fin.
3.7.10
Débito
A verdade mesmo é que ando pobre. Peguei-me endividado e imerso em juros e mais juros. Capitalismo literário. Os dias, as noites e as páginas exigem pagamentos dantescos. Tempos difíceis, crise.
A verdade mesmo é que não tenho um puto no bolso. E esse negócio de poesia custa caro, muito caro. Coisa de gente rica, com suas camisas listradas, amores-perfeitos, perfeitos amores e gatos. Gatos. E eu querendo arranjar cachorros. Devedor irrecuperável. Inadimplente incorruptível. Safado.
Beleza. Dinheiro, dinheiro: vicissitude da natureza humana. Concordo, em termos. Dá ainda para fingir. Vestir o capuz e brincar de artista. Já fiz isso, confesso. Mas acho que o meu furou. Um desastre ambiental colossal, um enorme vazamento de vanidades. E vaidades, eventualmente. Piscadela.
Não que eu me queixe, nossa, meu teto já foi bem ornado em outros tempos. Possuísse ele goteiras ou abóbadas fantásticas, sempre foi dono de uma engenharia original. Meia-boca, mas original. Não que tenha feito a diferença.
A diferença é que tem feito.
Vou ver se junto minha caixinha de moedas. Os trocos que a vida me deu. Sempre recuse os chicletes. Beijo, nêga, só pra constar.
A verdade mesmo é que não tenho um puto no bolso. E esse negócio de poesia custa caro, muito caro. Coisa de gente rica, com suas camisas listradas, amores-perfeitos, perfeitos amores e gatos. Gatos. E eu querendo arranjar cachorros. Devedor irrecuperável. Inadimplente incorruptível. Safado.
Beleza. Dinheiro, dinheiro: vicissitude da natureza humana. Concordo, em termos. Dá ainda para fingir. Vestir o capuz e brincar de artista. Já fiz isso, confesso. Mas acho que o meu furou. Um desastre ambiental colossal, um enorme vazamento de vanidades. E vaidades, eventualmente. Piscadela.
Não que eu me queixe, nossa, meu teto já foi bem ornado em outros tempos. Possuísse ele goteiras ou abóbadas fantásticas, sempre foi dono de uma engenharia original. Meia-boca, mas original. Não que tenha feito a diferença.
A diferença é que tem feito.
Vou ver se junto minha caixinha de moedas. Os trocos que a vida me deu. Sempre recuse os chicletes. Beijo, nêga, só pra constar.
2.6.10
Nalgum Momento
Ali, preso entre aquelas paredes de êxtase e desespero, ele enfim compreendeu que havia adoecido. Um vento estranho soprava e seu peito lembrava uma garrafa vazia à deriva. Era isso então estar envenenado? Não, quem sabe não. Quem sabe era aquele desejo de existir para alguém que não sua própria consciência.
Havia em si ainda um leve rancor de ter dado às pequenas tantas coisas tanta atenção e, no fim, ter tornado-se uma presa.
Dias e meses depois, compreendia porque a vida te dá o osso e te toma os dentes.
Havia em si ainda um leve rancor de ter dado às pequenas tantas coisas tanta atenção e, no fim, ter tornado-se uma presa.
Dias e meses depois, compreendia porque a vida te dá o osso e te toma os dentes.
30.1.10
Cão
Enganou-se. Isso aí que você chama de homem é na verdade um cão. Vive de busca. Busca problemas, soluções, felicidades e decepções. Em vão, mas busca. Vive também de desentendimentos. Quer fazer valer sua existência a todo custo. Faz barulho, rosna, avança, implica, discorda. Late, late, late, late. E às vezes vai à procura de algo que valha o empenho, o pobre-diabo.
Antes de tudo, procura uma companhia.
É o que procura um pedaço de gente quando planeja um dia ser homem. Homem-cão. E revira o mundo ao avesso atrás do par para seus chinelos. Um pedaço melhor de gente, melhor que ele mesmo. Que lhe dê um senso de direção e um sentido para a vida. Um rumo. E o faça pôr os pés na estrada tortuosa sem temer terminar só. E só terminar.
Antes de tudo, busca uma âncora.
Alguém que lhe devolva a paz de estar com os pés no chão. Que esteja sempre ao lado para lembrar que existe um rumo e que sem ele nada é real. E acima de tudo, que lhe segure. Que lhe desvende os olhos quando a fúria o cega, que o envolva num abraço longo quando o corpo entrar em chamas. Alguém que segure a onda. E o cão precisa de uma âncora para seguir sua natureza: por mais distante que vá, por mais improvável que seja, ele sempre volta. E repousa no seu lugar de direito.
Antes de tudo, fareja um cheiro.
Um cheiro doce que o arraste para longe do mal e faça endoidecerem os sentidos. Um aroma forte para estremecer as pernas e fazer perder a certeza de que existe um chão para se apoiar. Que tome de assalto a consciência e faça das memórias e do agora uma só coisa. O cheiro que em cada tragada traga tragédias sem conserto de volta, enchendo os pulmões com a dor de lembrar da distância. E faça doer mais ainda quando abrem-se os olhos e vêem que a distância existe mesmo fora do pesadelo. Que o faça sofrer, para não deixar evanescer a ideia de voltar sempre. Que o faça alegrar-se por ter a certeza de ser dono da melhor das sortes.
Antes de tudo, cai por uma mulher.
A mulher — procura o homem. Aquela uma que lhe arranque os pedaços com um olhar feroz, que lhe desmonte o corpo, que lhe remonte a alma. Que lhe tome a voz, que lhe governe os músculos, que lhe cegue os olhos com fervor. Que lhe mergulhe num estado de estupor enquanto ri entretida. Que lhe seja a fêmea e que lhe seja a porcelana. Que lhe cobre cuidado e afeto; que lhe cobre o carinho desajeitado de homem. Uma mulher que lhe dê uso ao peito, no descanso. Que lhe lave o pescoço com lágrimas, mesmo que lhe queime a pele e lhe mareje os olhos. A mulher que lhe empreste o rosto e lhe dê uso às mãos pedindo um afago para livrar a face bonita de todo o mal do mundo. Que sinta medo e encontre o escudo nos braços dele, senão numa palavra forte. A mulher que lhe seja a fêmea e a porcelana.
E guiado por ela, enfim o homem encontra o lugar.
O lugar para repousar a cabeça cansada da rotina viciada de um casal apartado. Para mergulhar o rosto em segurança e se perder na noite. Fugir do mundo imerso no rio negro que verte da cabeça firme de mulher e por vezes se entrelaça junto à face suada. O lugar que inquieta a tez e faz o espírito descansar. Ali dentro, ele reina. Pleno. E ali dentro, escolhe ficar. Até que a porra das circunstâncias o carreguem para longe de novo. Inerte e atado, ele vai, emputecido. Mas é assim, sem mais, sem menos, à base da rima pobre de um pobre cão:
Não me aprofundo;
Por nem mais um segundo;
E nem por isso afundo;
Mesmo sendo um homem imundo;
Mesmo sendo um vagabundo;
É nos teus cabelos que repouso:
O melhor lugar do mundo.
(E o cão já não procura mais.)
Antes de tudo, procura uma companhia.
É o que procura um pedaço de gente quando planeja um dia ser homem. Homem-cão. E revira o mundo ao avesso atrás do par para seus chinelos. Um pedaço melhor de gente, melhor que ele mesmo. Que lhe dê um senso de direção e um sentido para a vida. Um rumo. E o faça pôr os pés na estrada tortuosa sem temer terminar só. E só terminar.
Antes de tudo, busca uma âncora.
Alguém que lhe devolva a paz de estar com os pés no chão. Que esteja sempre ao lado para lembrar que existe um rumo e que sem ele nada é real. E acima de tudo, que lhe segure. Que lhe desvende os olhos quando a fúria o cega, que o envolva num abraço longo quando o corpo entrar em chamas. Alguém que segure a onda. E o cão precisa de uma âncora para seguir sua natureza: por mais distante que vá, por mais improvável que seja, ele sempre volta. E repousa no seu lugar de direito.
Antes de tudo, fareja um cheiro.
Um cheiro doce que o arraste para longe do mal e faça endoidecerem os sentidos. Um aroma forte para estremecer as pernas e fazer perder a certeza de que existe um chão para se apoiar. Que tome de assalto a consciência e faça das memórias e do agora uma só coisa. O cheiro que em cada tragada traga tragédias sem conserto de volta, enchendo os pulmões com a dor de lembrar da distância. E faça doer mais ainda quando abrem-se os olhos e vêem que a distância existe mesmo fora do pesadelo. Que o faça sofrer, para não deixar evanescer a ideia de voltar sempre. Que o faça alegrar-se por ter a certeza de ser dono da melhor das sortes.
Antes de tudo, cai por uma mulher.
A mulher — procura o homem. Aquela uma que lhe arranque os pedaços com um olhar feroz, que lhe desmonte o corpo, que lhe remonte a alma. Que lhe tome a voz, que lhe governe os músculos, que lhe cegue os olhos com fervor. Que lhe mergulhe num estado de estupor enquanto ri entretida. Que lhe seja a fêmea e que lhe seja a porcelana. Que lhe cobre cuidado e afeto; que lhe cobre o carinho desajeitado de homem. Uma mulher que lhe dê uso ao peito, no descanso. Que lhe lave o pescoço com lágrimas, mesmo que lhe queime a pele e lhe mareje os olhos. A mulher que lhe empreste o rosto e lhe dê uso às mãos pedindo um afago para livrar a face bonita de todo o mal do mundo. Que sinta medo e encontre o escudo nos braços dele, senão numa palavra forte. A mulher que lhe seja a fêmea e a porcelana.
E guiado por ela, enfim o homem encontra o lugar.
O lugar para repousar a cabeça cansada da rotina viciada de um casal apartado. Para mergulhar o rosto em segurança e se perder na noite. Fugir do mundo imerso no rio negro que verte da cabeça firme de mulher e por vezes se entrelaça junto à face suada. O lugar que inquieta a tez e faz o espírito descansar. Ali dentro, ele reina. Pleno. E ali dentro, escolhe ficar. Até que a porra das circunstâncias o carreguem para longe de novo. Inerte e atado, ele vai, emputecido. Mas é assim, sem mais, sem menos, à base da rima pobre de um pobre cão:
Não me aprofundo;
Por nem mais um segundo;
E nem por isso afundo;
Mesmo sendo um homem imundo;
Mesmo sendo um vagabundo;
É nos teus cabelos que repouso:
O melhor lugar do mundo.
(E o cão já não procura mais.)
31.12.09
21.12.09
Às Sete e Alguma Coisa
Hoje, o mar que eu vi era rosa. Ou seriam meus olhos cheios de dó que fitavam o velho mundo?
17.12.09
Calçada
É de impressionar como foge a cor do mundo quando o tempo acaba e ela se vai. Tudo se torna opaco, até mesmo o febril senso de defesa que outrora tomava conta do corpo. É como se lhe tomassem de súbito um dos sentidos; como se nem aquele perfume existisse mais ou como se cor alguma se refletisse nos olhos. É o roubo do tempo e do espaço. É a conspiração do chão pela queda. É o começo que brinca de ser fim. É o vazio que fica naqueles que não são oito — são oitenta. Aqueles que fervem demais, que sofrem demais, que odeiam demais, que gostam demais, que amam demais. E esquecem os demais para dar um centro ao universo caótico. É a hora de pagar o mergulho nas nuvens com o engulho ácido do ar que entra nos pulmões, a vida real que quer de novo estar no comando. E que esteja. A vida real é a gente quem faz quando quer de verdade. Feito melões numa calça.
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