18.5.09

Fugacidades (I)

Já iam-se quase sete quando ela sentou-se. Hesitante, puxou a carteira de lado e acomodou-se elegantemente. Nem de longe era a loira mais bonita que já vira. No entanto, emanava toda aquela aura ostensiva ariana que impressiona e dá impressão de grandeza.
Indiferente ao resto do cosmos, inclusive ao meu olhar espião, tomou a bolsa e retirou um livro de capa amarela. Abriu-o numa página premeditada e sacou o marcador-de-páginas com todo o desprezo de que dispunha. Atirou-o de lado. Pobre-diabo.
E foi com surpresa que a observei prender-se à leitura assim que seus olhos claros encontraram a primeira palavra. Em silêncio absoluto, pareceu abdicar de respirar por alguns momentos tamanha era sua concentração. Nem a euforia esdrúxula dos outros ocupantes do ambiente parecia desviá-la de seu foco. Hermética.
Preguiçosa, cerrou o punho e, sobre ele, apoiou a bochecha direita. O aspecto infantil a não privou da aparência contemplativa; no fim, não seria ela exatamente como eu? Eu não poderia ter certeza do que se passava debaixo dos fios dourados. Talvez as páginas somente a guiassem para suas preocupações e amenidades do tipo, as quais ela não encontraria em livro algum.
A verdade é que nada disso me dizia respeito. E nem ao bacharel, que caminhou até o tablado e, ignorando os protestos silenciosos da plateia, fez menção de dar início às formalidades. A loira, conformadamente resignada, fechou o livro. Eu fechei os olhos e abri o caderno.

13.5.09

Filme Mudo

Às vezes, descendo escadas, me sinto assim, em preto e branco. Como um daqueles filmes mudos, inexpressivos. Tudo o que me restou foi o músico apressado que preenche com sons o vão deixado pelas palavras. Palavras essas que se abrigaram sabe-se-lá-onde, deixando ecos para trás feito pegadas.
Não que eu ainda faça questão de me doer nessas agulhas que espetamos juntos; aprendi que o Além-mar, ainda que oniricamente, me guarda doces e salgados inesperados. Aprendi a ser criança direito, sem ter de desfiar alças inocentes, assim, sob olhares piedosos que recusei.
Meu espelho, no mesmo quarto chuvoso, hoje reflete um maior mais completo, por mais irônico que possa soar. Um olhar mais ensolarado, sorrisos mais ensaiados, distrações melhor planejadas. Um verdadeiro vice-campeão orgulhoso de sua prataria bem polida.
Fiz de mim um filme mudo, de fato. Um passo errado numa vida inconstante. Com muitas pedras a declarar e poucos a suportarem-nas, agora mexo em cordas. Talvez até ainda invente uma moda contextualizada qualquer dia desses. Só pra rir um pouco. E assumir que sou mesmo vintage.







25.4.09

Contemporaneidade.

"Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde
Vem não sei como, e dói não sei por quê."


Escrito por Luís Vaz de Camões. Pois é. Tempos modernos são o caralho.

22.4.09

Alma Encravada

Acordei cedo pra ver o circo pegar fogo
Pra me morrer mais um pouco
Esquecer o que é sentir demais, falar demais
Fingir pra tudo que estou rouco

Deitei-me tarde pra me enganar
De pouco em pouco, tudo vira chumbo
Teu riso vivo, meu pouco brio
Fecho meu peito, escondo o bumbo

"Me dá sua mão", deixa medir
Meus dedos vagos nos teus; ruir
Esconde o medo, prolonga a tarde
Já era, meu bem, sem mais alarde

No entanto, por fim me alegro
Se minhas costas rejeitam novos pianos
A caneta é meu alívio, abrigo, escape
Sem pretender, sou mais um entre levianos

19.4.09

Heresia

Eu não quero.
E nem vou.
Não vou aceitar que não sou eu quem barbariza com a minha vida.
Eu quero me ferrar sozinho.
Quero tropeçar nas minhas próprias pedras,
Quero sofrer mais um pouco, apanhar,
Quero que_______brar minha própria cara,
Quero que as minhas portas se fechem sem perceber que não entrei.
Quero me enterrar nos jardins que eu quiser,
quero me dobrar nas perdições que eu vir.
Fica daí, fingindo que existe.
Daqui, de baixo, eu finjo que respeito.
E passo meu tempo errando sozinho.

13.4.09

Muur

Sabe,
ando meio assim.
Ser contente é inerente àqueles de sorte plena e peito raso?
Tornar real é privilégio daqueles que pisam forte e pouco veem?
Desânimo é reflexo de alma triste ou castigo ao ego fraco?
O choro só é choro quando se faz chover ou quando fura por dentro?
Sinto pesar ou somente a inércia que trava em meio aos ventos?
Se questionar: é arte pura ou covardia burra?
Bem,
não sei.
Por isso ando meio assim.

8.2.09

O Campeão


Olhei para o céu. Senti-me completo. Senti-me feliz. Ergui meus braços e gritei dentro de mim. Eu era, pela primeira vez, um campeão. Eu estava vivo. Eu tinha ganhado. Se tivesse mesmo morrido naquele dia, não teria olhado para o céu. E não seria o campeão.

Mais Uma Justificativa

Tanta vontade de escrever
Que as palavras me fogem às mãos
Tropeçam-me aos olhos
Se escondem nos vãos

E que de tão vãos
Recuso-me a fechá-los
Fechá-los com um amor
Como recomendou o tal doutor

Doutor em assuntos experientes
Torturantes, reticentes
Faz-me um chá pras rugas
Me relembra as tantas fugas

E se são fugas, explico,
Já que tanto me julgas
Foi por medo, foi por ter
Essa vontade de escrever